Quarta-feira, Março 02, 2005

 

Consumo de antidepressivos aumentou 45% nos últimos cinco anos

" O consumo de medicamentos antidepressivos aumentou 45% nos úçtimos cinco anos: em 2000 foram comprados em Portugal cerca de quatro milhões de embalagens, no ano passado foram quase seis milhões. É o que revelam dados fornecidos pelo Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED). Os ansioliticos e tranquilizantes seguem a mesma tendência de subida.
Os antidepressivos estão a ser cada vez dispensados pelos médicos portugueses. De 2003 para 2004 a venda total de embalagens de medicamentos em farmácias subiu 2.5 por cento, mas no sub-grupo dos antidepressivos o crescimento ascendeu a 1 por cento (mais 627.467 caixas)- de cerca de cinco milhões passou-se para quase seis milhões. As regiões de Lisboa e Vale do Tejo e o Norte são recordistas.
Comparando 2000 com o ano passado, constacta-se que a tendência de subida é ainda mais acentuada: o consumo de antidepressivos cresceu cerca de 45%. Já dados anteriores, de 1995 e 2001, apontavam para incrementos enormes: uma duplicação (102.8%) no número de embalagens dispensadas, refere um estudo do Observatório do Medicamento e dos Produtos de Saúde, dispnivel em www.infarmed.pt.
Olhando para outra das classes terapêuticas dos chamados psicifarmacos- ansiolíticos (reduzem a ansiedade), sedativos (tranquilizantes) e hipnóticos (induzem o sono) - a tendência é a mesma. O conjunto destes fármacos, designam-se por benzodiazepinas, sofreu um aumento de 4% entre 2003 e 2004. De 2000 até ao ano passado a venda de embalagens subiu 27%: de perto de 17 milhões passou para mais de 21 milhões.

Um problema de saúde pública:
Carlos Lopes Pires, professo de Psicologia da saúde na Universidade de Coimbra, considera o cosumo de antidepressivos como um problema de saúde pública.
Os aumentos na sua comparticipação e a proliferação de genéricos levaram ao abaixamento de preços e contribuiram para a maior adesão, explica. Ao mesmo tempo, "vulgarizou-se a ideia de que não trazem problemas de saúde, que não provocam dependência", sustenta. E tanto médicos como doentes consideram-nos eficazes.
Há, no entanto, casos de "super-medicação". Não é raro ver uma pessoa a tomar dois antidepressivos e várias benzodiazepinas por tempo indeterminado." Na sua opinião, "há um laxismo, é facil ir prescrevendo" e a informação que os médicos recebem é a da própria indústria farmacêutica.
João Cabral Fernades, psiquiatra do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa, afirma que a prescrição de antidepressivos "é um indicador alarmante do sofrimento mental das populações". são afectadas, diz, as pessoas mais frágeis e com falta de perspectivas de futuro, ainda mais vivendo-se uma situação de aumento do desemprego e com idosos sem apoios sociais.
O médico considera que a prescrição de antidepressivos é a via "mais fácil" para os médics, mas também para a "mais frágil", porque "resolve o problma a cuto prazo mas não o soluciona e pode criar dependência". As depressões necessitariam de acompanhamento psicoterapêutico, defende.
O vicepresidente do Infarmed e um dos autores de estudos sobre o consumo de antidepressivos e benzodiazepinas e Portugal, António Faria Vaz, afirma que o problema não se limita ao acto da prescrição, tem raízes sociais mais profundas que devem ser investigadas pelo Ministério da Saúde. Até porque, garante, muitas vezes a prescrição resulta da pressão de doentes, em situação de sofrimento, sobre o próprio médico.
Um estudo do Observatório do Medicamento e dos Produtos de Saúde afirma que as benzodiazepinas poderão ser a causa se dependência físca e psíquica, mas que "tal não se materializou na prática clínica". O uso prolongado destes fármacos é mais comum em idosos do que em pessoas mais novas, refere a investigação."

Catarina Gomes in Público (2 de Março de 2005)

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